Contêineres estruturam teatro no centro de São Paulo

Grupo de artistas da capital se vale da arquitetura para modificar a realidade a sua volta

Como jornalista cobrindo arquitetura há mais de dez anos, confesso especial apreço por esta história, a do Teatro de Contêiner Mungunzá, no centrão de São Paulo. Explico já a razão: também sou dramaturga e o teatro é minha segunda casa.

Casa: uma palavra para muitas coisas. Se na revista, grande parte das vezes, falamos de moradas de sonho – um sonho caro e distante da realidade da maioria dos brasileiros –, também tentamos mostrar projetos capazes de ampliar essa ideia para além da residência unifamiliar.

O programa de necessidades inclui hall, um banheiro, lanchonete em esquema de “pague quanto achar justo”, parte técnica, camarim e, claro, o espaço da cena. (Divulgação/Marco Antonio)

Justamente o caso dos sete integrantes da Cia. Mungunzá de Teatro. Com dez anos de estrada, conseguiram poupar R$ 350 mil. “Resolvemos verticalizar nossa pesquisa e construir um teatro para a cidade”, conta Marcos Felipe, um dos atores do grupo.

Após mapeamento dos terrenos ociosos de São Paulo, propuseram ao poder público, ainda na gestão do prefeito Fernando Haddad, uma parceria de concessão de três anos.

No pavimento superior, os corredores abertos parecem galerias e podem fazer parte dos espetáculos. “Investimos numa cobertura de telhas metálicas com recheio termoacústico, que fez a temperatura interna cair 9°C”, detalha Marcos Felipe. (Divulgação/Marco Antonio)

A ocupação artística aconteceu no número 43 da Rua Gusmão, no bairro Santa Efigênia. “O lote de 1 000 metros quadrados, em uma região de infraestrutura precária e perto da chamada Cracolândia, dialogava com aquilo que a gente pensava sobre projeto arquitetônico e social.”

Se nos espetáculos do grupo a lógica de módulos e caixas permeava a cena, nesta obra ela se materializou em 11 contêineres: dez deles soldados um ao outro e um separado, servindo de depósito. Em cada ponta, panos de vidro deixam o volume visualmente permeável.

Ele fica aberto, com uma das faces de seu contêiner fechada com painéis de vidro articulado. “As pessoas podem ver os artistas se maquiando. Essa opção dialoga com o modo como enxergamos a arte”, diz Marcos Felipe. (Divulgação/Marco Antonio)

Inaugurado em março deste ano, o local já recebeu mais de 15 mil pessoas, entre elas espectadores e moradores da vizinhança, além das pessoas em situação de rua e as cerca de 50 crianças que aparecem todo dia para brincar no gramado e jogar bola.

O jardim sempre atrai crianças, interessadas nos brinquedos de tambores reutilizados – ideia do coletivo de arquitetos Basurama e do Assalto Cultural, que também participaram do projeto. (Divulgação/Marco Antonio)

“Queremos ser um ponto de mediação de conflitos, aberto a todos. Rejeitamos o termo revitalização porque achamos que o bairro tem muita vida, apesar dos problemas. É uma questão de o poder público olhar para o lugar e não apenas criminalizar a pobreza, sem iniciativas do ponto de vista da saúde, da habitação, do afeto…”

Afeto. Não devia ser ele outro sinônimo de casa, aquela que abre mão de seus muros para fazer parte de um ideal de cidade, aqui pensada como lugar de encontro? E não é isso o que o teatro faz?

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