Paris ou Rio? Difícil saber onde está projeto que soma estilos

O mix de referências engana e mal dá para saber se este apartamento fica em uma capital europeia ou na fluminense

Talvez acostumado aos prédios centenários de Paris, cidade onde vivia até há pouco tempo (e mantém um braço de seu escritório, o JdJ Design de Interiores), o francês Jean de Just demore a revelar o endereço onde realizou uma de suas intervenções, após se fixar no Brasil.

Abundância de luz natural e bom isolamento termoacústico (as paredes externas são espessas e, internamente, há outras duplas) revelam a qualidade da construção. Isso vale também em acabamentos como o trabalhado piso de tacos de madeira, devidamente recuperado. (Andre Nazareth/Andre Nazareth)

Enfim menciona o edifício Seabra, construção em estilo eclético localizada na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro, e bem conhecida dos cariocas – afinal, trata-se da estrutura de 12 andares com arcos à veneziana na fachada e acabamentos opulentos.

Um dos trunfos do imóvel antigo é o pé-direito alto (4,70 m) e preservá-lo incluiu manter o forro de gesso existente, bastante rebuscado. Para maior leveza do conjunto, o arquiteto mesmo concebeu um lustre delicado – sem cristais –, de ferro pintado de branco. (Andre Nazareth/Andre Nazareth)

“Me disseram ser a primeira torre residencial erguida no Rio”, conta o arquiteto e designer, retomando a história que retrocede a 1931, data na qual a família Seabra concluiu sua inédita empreitada e passou a ocupar a luxuosa cobertura tríplex de 2 mil metros quadrados.

Detalhe da madeira entalhada. (Andre Nazareth/Andre Nazareth)

O olhar para as marcas do tempo, justamente, foi o que levou o cliente a contratar Jean. “Fiquei conhecido pelo projeto de adaptação e restauro de um hotel na cidade. Ele me procurou porque desejava um procedimento semelhante no apartamento comprado no prédio, tombado faz alguns anos”, continua.

Espelhos adotados provavelmente na década de 80 marcavam o hall de entrada. Durante a obra, assumiu-se o material, que passou a cobrir as demais paredes do ambiente (o recurso ainda ajuda a multiplicar a claridade no lugar, sem janelas). Jean elegeu este pendente (Tok&Stok) para o teto em busca de um ar retrô e uma iluminação caleidoscópica. (André Nazareth/Andre Nazareth)

A visita à unidade de 150 metros quadrados (porção desmembrada da célebre cobertura) levou Jean de volta à década de 30, assim como à de 60 e 80, e à descoberta de soluções construtivas e decorativas tidas como ideais em diferentes momentos – algumas ele julgou fazerem sentido ainda hoje e manteve, outras não.

Grandes chapas retangulares da rocha que forrava originalmente o apartamento foram descobertas na obra – e recuperadas. Ao visual quente da coloração amarronzada se soma à colocação em espinha de peixe, incomum desde aquela época. (Andre Nazareth/Andre Nazareth)

Na prática, isso significou uma espécie de arqueologia. Só no piso, foi preciso remover cerca de 10 centímetros, amálgama de carpete aplicado sobre contrapiso e linóleo, até revelar-se o lindo parquê de madeira original.

Por todo lado, a situação era a mesma: camadas e camadas de materiais e ornamentos sobrepostos e justapostos, somatória de sucessivas reformas.

Cada quarto exibe uma cor, derivada da prospecção de materiais e histórias realizada pelo arquiteto. Este é o do morador e ganhou um azul suave e aconchegante (Suvinil, ref. Rio Danúbio). A cabeceira gigante coberta de juta (desenho de Jean) ajusta-se à escala dos espaços. (Andre Nazareth/Andre Nazareth)

O arquiteto consultou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em busca de diretrizes. E pôs-se a rasgar o pano – a seda que recobria as paredes –, tingir de branco as portas então douradas, além de conceber uma suíte e uma cozinha novas (como resultado da divisão realizada anos atrás, a unidade havia ficado sem este ambiente vital).

Nova em folha, a cozinha tem ares contemporâneos e, clean, ajuda a apaziguar a visão. Nos armários planejados (Florense),  nuances de gelo e cinza dialogam com os matizes do piso. O foco da atenção cabe ao vermelho intenso atrás do fogão. (Andre Nazareth/Andre Nazareth)

Funcionou. Aqui e ali, espelhos, mármores, portas, tacosmolduras ressurgiram em versão muito particular, porém mais harmoniosa.

Como o edifício tem lajes duplas, a tubulação de água e de esgoto pôde ser instalada no vão entre os andares e permitiu a criação descomplicada desta sala de banho onde havia um quarto. O visual antiguinho deve-se ainda às louças com coluna (Deca) e às arandelas art déco (Golden-Art). (Andre Nazareth/Andre Nazareth)

“O apartamento ficou um exuberante patchwork”, resume Jean, ponderando que poderia ter atenuado as marcas de época, mas satisfeito por ter enfatizado o valor histórico do lugar, exatamente como lhe foi encomendado. Afinal, ele não agiria assim caso estivesse em Paris?

Fruto do desmembramento de um imóvel maior, o apartamento não tinha cozinha (fez-se uma na ponta do antigo hall). Na reforma, surgiu também um banheiro a  mais, configurando a segunda suíte. Área: 150 m²; projeto de reforma e de interiores e ad ministração da obra: Jean de Just (JdJ Design de Interiores); engenheiro:  Reenge; marcenaria: Hipólito. (Ilustração/Campoy Estúdio)

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