Crônica: São Paulo sob o olhar de um arquiteto

Uma cidade diferente da que povoava minhas lembranças

Costumava dizer que vim a São Paulo só para nascer. Passei minha infância em Itu, SP, e as visitas à capital eram esporádicas: quando um primo nascia ou quando íamos de férias para Peruíbe, SP, e a parada era obrigatória. 

Havia o Estádio do Pacaembu, uma construção curva que parecia enorme e diminuía conforme a rua subia e virávamos à direita em direção ao bairro do Sumaré. Havia a casa da vó Judith, na Rua Pombal, uma casa ao contrário das outras que eu conhecia. Lá, uma passarela suspensa dava acesso à sala com sua enorme janela de piso a teto que enquadrava o vale do Pacaembu. Dali, descíamos as escadas para o piso inferior, onde os quartos tinham janelas ora para a vista, ora para o arrimo que continha o terreno em vertiginoso declive. Havia o relógio d’água do shopping cujo funcionamento era tão misterioso para mim quanto óbvio para minha vó, que pacientemente tentava o explicar apontando para os tubos de vidro cheios de água colorida. Pedaços caleidoscópicos de prédios e automóveis desfilavam para uma criança que via tudo meio de relance, do banco de trás do carro.

Cresci e voltei para prestar o vestibular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). No intervalo, atordoado pelas questões de desenho geométrico e embasbacado pela magnitude do edifício projetado por Vilanova Artigas, puxei conversa com uma garota que disputava a mesma vaga que eu. “Incrível como é arborizado aqui.” Ela respondeu: “Detesto as pessoas que acham que São Paulo é só concreto.” 

Não entrei na FAU. Fui para Campinas e, no meio do curso, viajei para Portugal. O que seria um intercâmbio de um ano transformou-se na conclusão do curso e início da carreira como arquiteto. Passados seis anos, a crise econômica escolheu por mim a hora de voltar. As novas oportunidades foram aparecer naquela cidade onde eu pensava ser incapaz de viver: São Paulo. Sua tendência à setorização – que põe os músicos na Teodoro, as noivas na São Caetano e os arquitetos na General Jardim – me ajudou a encontrar um apartamento que permitisse uma vida parecida com a levada no Porto. Lá, meu cotidiano se dava a pé, e a relação com a cidade era de troca e de aprendizado constantes: podia subir a rua mais inclinada ou demorar mais por espaços menos íngremes, podia contornar um quarteirão ou atravessar as galerias que conectavam os térreos dos prédios. A pé, a cidade fazia muito mais sentido. Por que não tentar o mesmo aqui?

Comecei a enxergar uma cidade diferente da que povoava minhas lembranças. Havia prédios belíssimos, como o Albatroz, do arquiteto João Kon – com suas salas envidraçadas e janelas do tipo guilhotina coloridas –, ou o Itacolomi, de Victor Reif – com seu jardim sem grades serpenteando entre os pilares do térreo aberto. Havia as calçadas largas da Avenida São Luís e as enormes árvores da Praça Dom José Gaspar. De repente, olhares estranhos viraram cumprimentos calorosos e as ruas desconhecidas agora são o endereço de amigos. As peças daquele quebra-cabeças que pareciam tão dispersas afinal se encaixavam lado a lado. Há cinco anos, substituí esse medo do desconhecido pelo encantamento de suas incertezas. São Paulo, como aquele relógio d’água, fica cada vez mais interessante, mesmo sendo impossível entendê-la por completo.

*André Scarpa é arquiteto e fotógrafo de arquitetura, sócio do escritório paulistano Nitsche Arquitetos.

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