Reforma dá cara nova a apartamento dos anos 60 em Brasília

Num prédio icônico da capital federal, a morada clara e espaçosa encantou uma família, disposta a uma obra de atualização e resgate da arquitetura original. O resultado acomoda com despojamento o casal, visitas e até o pequeno Vicente tocando bateria

Para quem não traz o mapa da cidade na memória, o brasiliense Matheus Seco, integrante do escritório Bloco Arquitetos, ajuda com um pouco de geografia e história recente. “O apartamento fica na SQN 107, num conjunto habitacional de 1966, de proposta brutalista, que andou mal cuidado e era visto com preconceito. Isso até ser revitalizado há poucos anos e virar ‘cult’.” Algo parecido descreve Eduardo Rossi Fernandes, que em 2015 o contratou e a seus colegas para a reforma do imóvel, ao relatar como ele e a mulher encontraram a nova residência. “Estávamos em busca de um predinho sem elevador nem garagem e vimos esta oportunidade num site. Fomos visitar o lugar e tivemos certeza na hora. Mesmo com o valor acima do programado, não deu para escapar”, diz ele.

A sala ampla, luminosa, e a fachada diferente cativaram o casal, que decidiu pela compra e embarcou numa espécie de epifania arquitetônica. “Passamos a pesquisar tudo a respeito do assunto, descobrimos quem foram os autores do edifício – Mayumi Watanabe de Souza Lima e Sérgio de Souza Lima –, entendemos a importância da intenção original deles, de erguer tudo com pré-moldados em busca de agilidade e escala no canteiro de obras, parte do ideário moderno…”, resume. 

O gesto maior desse recém-descoberto interesse tomou forma numa carta, escrita por Eduardo e Camilla ao antigo proprietáriosíndico e profundo admirador do lugar – atestando serem apreciadores das qualidades do projeto, com grande disposição para preservá-las. Evidentemente, venceram os demais concorrentes na disputa pelo negócio. A escolha dos profissionais para a necessária reforma, claro, também foi tema de estudo. O casal chegou a mais de uma dezena de bons nomes, de São Paulo a Goiás, até decidir pela alternativa local. Os dois colecionaram referências, ideias, e as apresentaram à equipe do Bloco. Assim foram decidindo o que fazer. Uma estante de fora a fora, sala e cozinha integradas e foco nos espaços de convivência (quartos compactos, sem TV) constavam da lista de pedidos.

Encarregado do acompanhamento da obra, Bruno Goldenberg entrou na sintonia. “Ele é arquiteto e entendia o valor de executar cada detalhe conforme planejado, com bom preço e no prazo”, elogia Eduardo. Cinco meses depois, até os móveis novos – sim, também minuciosamente calculados – já estavam postos. Hoje, a família celebra o silêncio reinante (as unidades ficam desencontradas umas das outras nas laterais e as lajes duplas bloqueiam o som dos passos entre os andares) e a brisa contínua, que dispensa totalmente o ar condicionado. “Me divirto quando alguém vem entregar pizza e se surpreende ao descobrir não se tratar de uma torre comercial. Ou imaginando o estranhamento do meu pai com a nossa escolha de endereço, pouco óbvia. Não importa, adoramos isso aqui”, conclui Eduardo.

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