Mulheres arquitetas, com muito orgulho

As últimas décadas viram crescer o número de mulheres na arquitetura, mas elas ainda ganham menos e são minoria nos postos de destaque e liderança. Uma nova geração quer mudar esse jogo

1890: A chilena Sophia Hayden Bennet foi a primeira mulher a obter o diploma de arquitetura do Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston, nos Estados Unidos. No ano seguinte, venceu o concurso para assinar o Edifício da Mulher, em Chicago, trabalho pelo qual recebeu US$ 1 mil, dez vezes menos do que os homens ganhavam então pelo mesmo tipo de encomenda. Frequentes embates com o comitê da construção causaram tanto desgaste que Sophia se retirou por um tempo da obra, gerando rumores de um colapso nervoso, fato usado na época como prova de que mulheres não serviam à profissão.

2013: Ao agradecer pelo troféu Veuve Clicquot Business Woman Award, em Londres, a iraquiana Zaha Hadid, detentora do primeiro Pritzker feminino (em 2004), discursou: “A arquitetura não é mais um mundo de homens. Essa ideia de que não podemos pensar de forma tridimensional é ridícula”.

De fato, após mais de um século entre esses dois episódios, a presença feminina nesse mercado aumentou. No Brasil, as moças já prevalecem, com 61% do total de profissionais em atividade, contra 39% de homens, segundo o censo de 2012 do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR). Essa tendência cresceu aqui nas últimas décadas, sobretudo na faixa etária mais jovem: entre 20 e 25 anos, elas são 78,3%. “Ótimo”, você deve estar pensando, “parece tudo bem”. Nem tanto. Com o tempo, o quadro se inverte. Dos 41 aos 50 anos, as mulheres são 57,4% e, na faixa acima de 61 anos, 29%. Tal fenômeno, também observado mundialmente em outros campos, como o da física e da engenharia, foi cunhado de “leaky pipe line”, algo como cano vazando. “Dos estudantes, pelo menos 50% são mulheres. Mas muitas saem antes de se formar. No mercado internacional, quando olhamos para os postos de direção, o número só encolhe”, afirma a americana Martha Thorne, diretora executiva do Pritzker, a premiação mais relevante da área. 

Por que isso se dá? “Entre outras razões, tem a ver com as muitas horas de dedicação exigidas, a necessidade de lidar com a família e a discriminação da sociedade, a qual ainda vê os homens como melhores líderes e mais aptos ao ramo da construção.” Preconceito, em 2016? “Não acho que se trata de misoginia, mas é verdade que há menos mulheres em posição sênior, evidentemente não porque sejam menos competentes ou ambiciosas, mas em função de barreiras típicas do modelo de negócios convencional, o qual pressupõe uma carreira linear, sem espaço para pausa”, complementa Teresa Borsuk, sócia do escritório londrino Pollard Thomas Edwards e eleita arquiteta do ano de 2015 pelo prêmio AJ Woman Architect of the Year por sua contribuição em prol da igualdade de gênero no ofício. E quanto aos salários? “Há uma lacuna na remuneração, em geral menor”, lembra Elisabete França, diretora do Studio 2E Ideias Urbanas. De acordo com a investigação da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) referente ao segundo semestre de 2015 no Brasil, a média salarial dos arquitetos de edificações foi de R$ 5 854 e, das arquitetas, de R$ 5 305. “Há um caminho longo pela frente”, comenta Elisabete.

Ao passado e ao futuro

Ainda que a estrada pareça infinita, não se deve esquecer de quem a desbravou. Por aqui, Lina Bo Bardi (1914-1992), que gostava de ser chamada de arquiteto – e não arquiteta – é a grande referência. Seu maior manifesto foram suas obras, como o Sesc Pompeia, o Teat(r)o Oficina (recentemente listado pelo The Observer, ligado ao jornal britânico The Guardian, como um dos dez teatros mais impressionantes do mundo) e o Museu de Arte de São Paulo (Masp). “Eu procurei, no Masp, retomar certas posições. Não procurei a beleza, procurei a liberdade. Os intelectuais não gostaram, o povo gostou: ‘Sabe quem fez isso? Foi uma mulher!’”, disse ela. 

Outro nome reverenciado é o da paulista Rosa Kliass, 83 anos, pioneira da arquitetura paisagística e responsável, entre outros projetos, pela reforma do Vale do Anhangabaú, nos anos 80, em São Paulo. “No final da década de 60, ganhei uma bolsa-viagem para os Estados Unidos. Eu já era casada, tinha filhos, escritório… Lá, me perguntavam como eu fazia, por exemplo, para trabalhar numa obra, com os operários. Nunca tive nenhum tipo de constrangimento nem me senti discriminada, mas creio que tem a ver com certa postura”, conta Rosa.

Expoente da nossa produção contemporânea, a paulistana Lua Nitsche concorda. “Acho delicado falar de gênero sem entrar em clichês. Mas sinto que, como mulher, você precisa ter alguma agressividade para abrir um escritório e se colocar”, analisa. Depois dela, uma geração ainda mais jovem, formada a partir dos anos 2000, vem se posicionando de forma ímpar. “Tenho admiração por essas meninas, pois estão aparecendo mais e elaborando pesquisas nunca vistas, como a do Arquitetas Invisíveis”, observa Elisabete França. Nascido em 2013, na Universidade de Brasília (UnB), o coletivo citado por ela reúne cinco integrantes. “Na época, percebemos uma disparidade entre a quantidade de nomes importantes de arquitetos que conhecíamos em relação aos de arquitetas. Logo ficou claro que tal diferença ocorria pela falta de reconhecimento e por isso criamos um espaço na internet para divulgar perfis de figuras até então ignoradas mesmo para nós”, conta uma das pesquisadoras, Luiza Rego Dias Coelho, 23 anos.

Traço feminino

Se há algo em comum entre todas, talvez seja principalmente a paixão pelo ofício – e não qualquer outra característica típica do jeito de projetar. “Não penso que exista algum tipo de contribuição simplesmente vinculada ao gênero”, contesta Luiza. Quando perguntada sobre o assunto, a japonesa Kazuyo Sejima, a única ganhadora do Pritzker (2010) além de Zaha Hadid, é objetiva. “Sei que há diferenças entre homens e mulheres, assim como há diferentes pessoas.” Estudiosa do tema, a professora Ana Gabriela Godinho Lima endossa. “Uma arquiteta competente projetará uma indústria automotiva não como mulher, mas como profissional. Podemos dizer o mesmo de um homem pensando uma escola infantil. Esses profissionais lidam com os aspectos femininos e masculinos à medida que a obra pede.” 

Por sua vez, Teresa Borsuk aceita ponderações. “Embora não seja possível particularizar um estilo de trabalhar, vejo habilidades inatas inestimáveis, que incluem a escuta, abordagens colaborativas para resolver problemas e capacidade para múltiplas tarefas, bem como para sintetizar diversos pontos de vista de forma rápida. Geralmente subestimada, a colaboração tem importância fundamental nos processos”. Sim, colaboração. Por que não pensar nela para reduzir distâncias? “Um ambiente equilibrado beneficia a todos, faz sentido para os negócios. E, claro, nada disso deve configurar como oposição entre homens e mulheres”, lembra Teresa.

Veja mais matérias sobre mulheres na arquitetura:

– Entrevista exclusiva com Martha Thorne, diretora executiva do Prêmio Pritzker

– Entrevista exclusiva com Teresa Borsuk, sócia do escritório londrino Pollard Thomas Edwards

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